Imagino o meu pai assim / C’est ainsi que j’imagine mon père
- Par Djaimilia Pereira de Almeida,
- Traduction Agnès Levécot
Pages 54 à 55
Citer cet article
- PEREIRA DE ALMEIDA, Djaimilia,
- Traduction LEVÉCOT, Agnès,
- Pereira de Almeida, Djaimilia.,
- et al.
- Pereira de Almeida, D.,
- Traduction Levécot, A.
https://doi.org/10.3917/sigila.056.0054
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- Pereira de Almeida, D.,
- Traduction Levécot, A.
- Pereira de Almeida, Djaimilia.,
- et al.
- PEREIRA DE ALMEIDA, Djaimilia,
- Traduction LEVÉCOT, Agnès,
https://doi.org/10.3917/sigila.056.0054
1 Imagino o meu pai assim, neste retrato dele que esboço, junto ao seu livro-fantasma. Teria a vida do meu pai sido não o sonho mas o luto do seu livro ? Será que escavo o sonho do livro de Joaquim não para o terminar, mas para o impedir de terminar ? Não é o que quero ? Que o meu pai, como o seu livro, não termine nunca ? Contemplo a sua vida terminada abruptamente como uma família contempla, entrando no estúdio do artista, os quadros que ele deixou inacabados. Assim, o livro inconcluso, deixado pelo meu pai em ideia, é o meu portal para a sua imortalidade, e não uma confirmação de finitude, ou sequer um memento mori da minha.
2 Livro da Doença, Lisbonne, Relógio d’Água, 2024, p. 22.
3 C’est ainsi que j’imagine mon père, dans ce portrait que j’ébauche, auprès de son livre-fantasme. La vie de mon père n’aurait-elle pas été le deuil de son livre plutôt que son rêve ? Serait-ce que je creuse le rêve du livre de Joaquim non pas pour le terminer, mais pour l’empêcher de terminer ? N’est-ce pas ce que je veux ? Que mon père, comme son livre, jamais ne se termine ? Je contemple sa vie brusquement terminée comme une famille contemple, en entrant dans le studio de l’artiste, les tableaux qu’il a laissés inachevés. Ainsi, le livre sans fin, que mon père n’a laissé qu’en idée, est pour moi une porte vers son immortalité, et non pas une confirmation de finitude, ni même un memento mori de la mienne.